Em busca de apoio, Obama diz que reforma de saúde não faz parte de jogo político
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, usou uma entrevista coletiva em horário nobre na TV americana nesta quarta-feira para tentar impulsionar a reforma do setor de saúde do país, que sofre resistência no Congresso e divide a opinião pública. Ele retratou os adversários do plano como politicamente motivados e buscou apelar para os problemas que o americano comum enfrenta diante dos custos crescentes com saúde e com a falta de uma alternativa governamental de assistência, dizendo que pretende ainda este ano ver aprovada a reforma.
No momento em que sua popularidade dá sinais de desgaste, Obama inscreveu a reforma de saúde no contexto da recuperação dos EUA em meio à crise econômica, dizendo que ela é uma parte fundamental do esforço de reconstruir a economia americana de uma maneira mais forte do que era antes.
"Deixem-me falar claramente: se nós não controlamos as despesas, não vamos ser capazes de controlar o nosso déficit. Se não fizermos reforma da saúde, seus custos de mensalidade e coparticipação [pagamento por consulta] continuarão a explodir. Se não agirmos, 14 mil americanos vão continuar a perder os seus seguros de saúde todos os dias. Estas são as consequências da inação. Estes são os desafios do debate que estamos travando", disse o presidente.
Como os EUA não possuem um sistema universal de saúde pública, os americanos dependem de planos privados e de dois programas governamentais voltados para pessoas carentes com mais e 65 anos (Medicare) e pessoas pobres com necessidades específicas (Medicaid), mas esses programas dependem muitas vezes de algum pagamento e possuem critérios estritos de elegibilidade, o que deixa mais de 40 milhões de pessoas sem cobertura.
"Isso não tem a ver apenas com os 47 milhões de americanos que não têm seguro de saúde. A reforma tem a ver com cada americano que já temeu perder a cobertura se ficar muito doente, ou perder o emprego, ou mudar de trabalho. Tem a ver com cada pequena empresa que tenha sido forçada a demitir funcionários ou reduzir a cobertura deles, porque ela se tornou muito cara. E tem a ver como o fato de que a maior força motriz do nosso estratosférico déficit federal é o custo do Medicare e do Medicaid", disse o presidente.
"Eu entendo que, com todas as acusações e críticas sendo lançadas em Washington, muitos americanos podem estar se perguntando: "Como é que eu fico? Como é que a minha família pode se beneficiar da reforma do seguro de saúde?", disse Obama, afirmando que, embora o Congresso ainda esteja trabalhando em algumas questões fundamentais, já há acordo sobre alguns temas da reforma do setor de saúde.
"Se você já tem seguro de saúde, a reforma que estamos propondo irá lhe proporcionar mais segurança e mais estabilidade", disse Obama, que abordou também uma questão central das críticas ao programa: o direito de escolha do cidadão. "Ela [a reforma] vai manter o governo de fora das decisões sobre planos de saúde, dando-lhe a opção de manter o seu seguro se você estiver satisfeito com ele. Ela vai impedir as companhias de seguros de tirar sua cobertura se você ficar muito doente. Ela lhe dará a segurança de saber que, se você perder o seu emprego, mudar-se, trocar de emprego, você ainda será capaz de ter uma cobertura."
O presidente também afirmou que, entre os pontos já acertados, está um limite ao valor que as empresa de seguros pode cobrar por despesas médicas e a cobertura de cuidados preventivos, como check-ups e mamografias, além da proibição para que as empresas neguem cobertura devido a uma doença preexistente.
Depois de listar os pontos que seriam consensuais, Obama mirou nos seus críticos, retomando as imagens usadas na campanha, quando descrevia Washington como uma cidade apegada a velhas formas de fazer política e concentrada no jogo de poder e dos interesses particulares, enquanto apresentava a si mesmo como representante de uma política focada nas preocupações reais dos cidadãos.
"Eu entendo como é fácil para esta cidade se consumir no jogo da política, transformar todas as questões em um registro de quem está ganhando e quem está perdendo. Eu ouvi dizer que um estrategista republicano disse ao seu partido que, embora eles possam querer entrar em acordo, é melhor política ir para o massacre. Outro senador republicano disse que a reforma da saúde tem a ver com me derrotar", disse o presidente.
"Então me deixem ser claro: isto não tem a ver comigo. Tenho um ótimo seguro de saúde, assim como todos os membros do Congresso [...]. Tem a ver com a mulher no Colorado, que pagou US$ 700 por mês para a sua companhia de seguros apenas para descobrir que eles não pagariam um centavo por seu tratamento de câncer --que teve de utilizar seus fundos de aposentadoria para salvar sua própria vida", disse Obama. "Isto tem a ver com cada família, cada empresa e cada contribuinte que continuam a suportar o encargo de um problema que Washington não conseguiu resolver por décadas."
"Este debate não é um jogo para esses americanos, e eles não podem esperar mais tempo pela reforma. Eles estão contando conosco para que isso seja feito. Eles estão olhando para nós em busca de liderança. E não podemos decepcioná-los", afirmou o presidente ao fim de sua apresentação inicial. "Vamos aprovar uma reforma que reduza custos, promova a escolha, e ofereça a cobertura com que todo americano possa contar. E vamos fazê-lo este ano", afirmou.
Déficit
Questionado sobre o impacto que a reforma de saúde --que segundo estimativas pode custar US$ 1 trilhão em dez anos-- pode ter sobre o crescente déficit público americano, Obama tentou colocar a proposta no conjunto das iniciativas para reativar a economia americana, ao lado do pacote bilionário de resgate de empresas.
O presidente disse que as condições econômicas dos EUA "estariam ainda piores" se o governo não tivesse feito um plano de resgate do sistema financeiro e que a reforma vai garantir uma economia e não um déficit maior. "A dívida e o déficit são minhas preocupações profundas", disse Obama a afirmando que "a reforma do sistema de saúde não engordará o déficit nos próximos dez anos".
Segundo o presidente, "dois terços do valor da reforma podem ser custeados com a redistribuição do dinheiro que simplesmente se desperdiça em programas de saúde federais". Para Obama, caso não haja a reforma e o controle das despesas com saúde --área que mais contribui para o déficit federal--, "não seremos capazes de controlar nosso déficit".
O presidente americano deve continuar sua campanha em defesa da reforma do sistema de saúde amanhã em uma visita à cidade de Cleveland, onde visitará um centro médico.
O debate parece afetar a popularidade de Obama, que superava 70% logo após sua posse, em janeiro. Uma pesquisa publicada hoje pelo jornal "USA Today" mostra que a aceitação de Obama está em 55%, enquanto a desaprovação subiu 16 pontos percentuais e já chega a 41%. O estudo destaca que apenas 44% dos americanos apoia os esforços do presidente em favor da reforma, sendo que 50% são contrários a ela.
Outras pesquisas divulgadas ao longo desta semana seguem a mesma linha e parecem dar força à oposição republicana, que, pela primeira vez desde que perdeu a Casa Branca nas eleições de novembro do ano passado, tem uma mensagem que encontra apoio popular.
No próximo ano, haverá eleições para o Congresso, e a batalha pela opinião pública, da qual fazem parte a entrevista desta quarta-feira, as declarações de republicanos e anúncios de TV dos dois lados sobre a reforma de saúde, é parte fundamental da estratégia para pressionar os congressistas na decisão sobre o tema.
Mais cedo, em entrevista à rede pública PBS, Obama, que defendia que a reforma fosse votada antes do recesso parlamentar de agosto, disse que esse prazo pode estourar, mas mantém a necessidade de votação mais cedo possível.
"Se não houver um prazo final, nada acontece nessa cidade [...] se alguém vem até mim e diz `está quase pronto` ainda vai demorar uns dias ou uma semana."
Fonte: Folha OnLine
