Sob pressão republicana, Sotomayor evita falar sobre aborto
Em audiência de confirmação no Senado, indicada para Supremo rejeita perguntas por serem hipotéticas
Sonia Sotomayor, indicada por Barack Obama para entrar na Suprema Corte dos Estados Unidos, evitou nesta quarta-feira, 15, se pronunciar sobre o aborto, apesar da insistência dos republicanos, e revelou que o presidente americano nem sequer perguntou a ela sobre o tema ao entrevistá-la para o cargo. Enquanto em outros países a regulação ou proibição do aborto é um assunto da Legislatura, nos EUA a última palavra a respeito é da Suprema Corte e por isso é questão-chave nas audiências de confirmação de um novo membro.
Sotomayor evitou apresentar sua opinião usando os mesmo métodos de candidatos anteriores a ela: rejeitou algumas perguntas por serem hipotéticas e argumentou que não pode fazer comentários porque um caso similar pode chegar ao Supremo. A juíza também usou seu conhecimento da lei para evitar respostas diretas, em seu terceiro dia de depoimento perante o Comitê Judicial do Senado, onde a maioria democrata deve significar a entrada sem problemas de Sotomayor na principal corte do país, a menos que haja uma surpresa de última hora.
O senador republicano Tom Coburn, um dos mais ferrenhos antiabortistas do Congresso, perguntou a Sotomayor se seria legal que uma mulher abordasse na 38ª semana se o feto sofresse de uma deformação congênita da coluna vertebral. Sotomayor não caiu na tentação e argumentou que não poderia responder "de forma abstrata, porque teria que olhar as leis estaduais."
Já o republicano John Cornyn perguntou por que após a escolha em maio de Barack Obama, a Casa Branca aparentemente disse a grupos defensores do aborto que a juíza se inclinava pela causa. A magistrada, de 55 anos, disse não saber a resposta. "Ninguém me perguntou, nem sequer o presidente, sobre minhas opiniões sobre nenhum assunto específico", ressaltou.
Apesar de ter passado 17 anos como juíza de distrito e de uma corte de apelações, Sotomayor praticamente não julgou casos sobre o aborto. Em 2002, sentenciou contra grupos que favorecem a interrupção voluntária da gravidez, ao aplicar precedentes legais que refletiam a política do então presidente George W. Bush de proibir fundos públicos para organizações que promovem o aborto no exterior. Obama revogou tal política.
Na audiência desta quarta, os republicanos voltaram a lembrar um discurso de 2001 de Sotomayor, no qual disse que uma juíza latina "sábia" poderia chegar a uma conclusão melhor em suas sentenças pela riqueza de sua experiência que um homem branco. Apesar de na sessão de ontem a juíza já ter reafirmado seus comentários, Cornyn a pressionou para que voltasse a explicar o que quis dizer.
Sotomayor disse que a experiência pessoal de um juiz "ajuda a escutar e a entender" um caso, mas que o resultado é determinado unicamente pela lei. A juíza reconheceu que a mensagem "foi diferente do que algumas pessoas entenderam" e afirmou que "lamenta" a interpretação errônea. Mesmo assim, Sotomayor não se retratou do discurso, realizado perante um grupo de estudantes e advogados latinos na Califórnia, e disse que a mesma ideia foi expressada pelos magistrados do Tribunal Supremo Sandra Day O`Connor e Samuel Alito.
"É o que o juiz Alito quis dizer quando afirmou que leva em conta sua ascendência italiana quando vê casos de discriminação", explicou a juíza, que é filha de porto-riquenhos. Depois da segunda rodada de perguntas e respostas por parte dos 19 membros do Comitê, comparecerão na sala 216 do Edifício Hart, onde acontecem as audiências, testemunhas convocados pelos democratas e os republicanos.
Após isso, votará o Comitê e, posteriormente, o plenário. Cornyn disse que os republicanos não tentarão adiar indefinidamente a votação, seu único recurso para impedir que Sotomayor se transforme na primeira latina e a terceira mulher a entrar na Suprema Corte.
Fonte: Efe
