EUA tentam impor nova estratégia e limpar imagem em operação no Afeganistão
Os fuzileiros navais americanos sofreram a primeira baixa na nova campanha militar maciça lançada nas primeiras horas desta quinta-feira contra o domínio do grupo fundamentalista islâmico Taleban em áreas da Província de Helmand, no sul do Afeganistão.
Um fuzileiro naval foi morto e vários outros foram feridos no primeiro dia da maior operação militar no Afeganistão desde a queda do governo taleban em 2001. Batizada de operação Khanjar (Golpe de Espada), a ofensiva vai testar a nova estratégia do governo do presidente americano, Barack Obama, de tomar o controle do território e de permitir que o governo afegão se estabeleça na província Helmand. A insurgência tem-se revelado particularmente resistente nesta área, onde as tropas ocidentais nunca tinham operado em escala tão ampla.
Em uma entrevista à agência de notícias Associated Press, Obama disse nesta quinta que ele tem uma "definição muito restrita de sucesso" em relação aos interesses de segurança nacional americana na região. "E é que a [rede terrorista] Al Qaeda e seus afiliados não possam criar refúgios a partir dos quais ataquem americanos."
O objetivo imediato, segundo os militares, é tirar os insurgentes da região antes da eleição presidencial afegã, marcada para 20 de agosto. O sul do Afeganistão é um reduto taleban, mas também é uma região onde o presidente afegão, Hamid Karzai, está buscando votos de afegãos da etnia pashtun. Sem uma ação tão maciça dos soldados, o governo afegão, provavelmente não será capaz de levar urnas que possam ser utilizadas com segurança pelos eleitores.
O Pentágono está enviando 21 mil soldados adicionais para o Afeganistão a tempo para as eleições e espera que o número total de soldados americanos no país chegue a 68 mil até o fim deste ano. Isso é o dobro do número de soldados dos EUA no país, em 2008, mas ainda representa metade dos que ainda estão no Iraque. Nesta terça-feira, as tropas americanas deixaram as cidades iraquianas e devem retirar-se o país até 2011. Esse movimento será acompanhado do reforço de tropas no Afeganistão, dentro da estratégia de Obama.
Os maiores desafios para essa nova forma de ação devem vir nas próximas semanas e meses, depois que os americanos estabelecerem sua presença nos territórios hoje sob domínio taleban.
Os EUA terão de ajudar a desenvolver alternativas viáveis para os agricultores que hoje se dedicam ao cultivo de papoula, matéria-prima para a produção de ópio, droga cujo tráfico ajuda a financiar o Taleban. A Província de Helmand é a maior zona produtora de papoula no mundo.
Pressionado pelos EUA a combater o Taleban dentro de suas fronteiras, o Exército do Paquistão informou que moveu tropas nesta quinta-feira para a região que se seu território vizinha a Helmand, para tentar impedir a fuga de militantes islâmicos para o país durante a ofensiva americana. O domínio sobre Helmand também dará aos EUA a oportunidade para de barrar a entrada de combatentes provenientes Paquistão no Afeganistão. As zonas tribais entre os dois países, em grande parte fora do controle dos governos, são vistas como refúgios para extremistas talebans e para membros da rede Al Qaeda.
Os militares dos EUA também informaram acreditar que um soldado americano foi capturado pelos talebans no leste do Afeganistão na terça-feira. O soldado não estava envolvido na operação Khanjar, em curso no sul do país.
Primeiro dia
A ofensiva foi lançada pouco depois da 1h desta quinta-feira, com milhares de fuzileiros navais sendo levados para vilas ao longo do rio Helmand a bordo de helicópteros e veículos blindados. Oficiais descreveram a ofensiva, envolvendo quase 4.000 fuzileiros navais recém-chegados e mais de 600 membros das forças de segurança afegãs, como a maior e de movimentação mais rápida desta nova fase da guerra.
Os militares também utilizaram o primeiro dia da operação, e suas declarações à imprensa, como uma forma de mostrar que serão mais cuidadosos na hora de realizar ataques, para evitar as frequentes mortes de civis que ajudaram a diminuir o apoio à coalizão ocidental no Afeganistão.
As tropas avançaram pelos distritos de Nawa e Garmser no centro de Helmand e a até 88 km ao sul, nas imediações de Khan Neshin, a capital do distrito Rig, de acordo com os militares.
No verão passado, a 24ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais conquistou o controle da cidade de Garmser e ajudou a fornecer uma garantia de segurança para uma região que, segundo os militares americanos, agora é relativamente segura. Os EUA gostariam de replicar esse sucesso no resto da Província.
Na vila de Nawa, os fuzileiros navais pegaram os militantes de surpresa, pousando atrás de linhas talebans, disse o capitão Schoenmaker Drew, 31, de Greene, Nova York.
"Nós estamos meio que avançando em um novo terreno aqui. Estamos indo para um lugar onde ninguém foi antes", disse Schoenmaker, que comanda uma companhia do 1 º Batalhão do 5° Regimento de fuzileiros navais.
Às 3h, várias centenas de fuzileiros navais se posicionaram em um campo recém arado. A terra macia acabou sendo um obstáculo para os soldados --carregados com armas, munição e suprimentos de água e comida para vários dias, muitos deles tropeçaram.
Ao amanhecer, os fuzileiros caminharam em um descampado e, às 6h15, a companhia ficou pela primeira vez sob fogo, sendo alvo de tiros provavelmente disparados de um fuzil russo AK-47. Nas três horas seguintes, houve repetidas rajadas de tiros, e os militantes atacaram os soldados também com lançadores de granadas.
Um pequeno grupo de soldados afegãos que acompanha os fuzileiros de Camp Pendleton entrou em combate contra uma força de cerca de 20 insurgentes que disparavam de uma construção de adobe.
Os fuzileiros, os soldados afegãos e conselheiros britânicos cercaram a construção.
Antes da missão, Schoenmaker, o comandante da companhia, disse que iria usa "paciência tática", como uma forma de evitar baixas civis --uma questão que o recém recém-chegado comandante militar americano no Afeganistão, general Stanley McChrystal, tem sublinhado nas últimas semanas.
Embora em muitas circunstâncias semelhantes as tropas tenham pedido reforço de ataques aéreos sobre locais --controlados por insurgentes, Schoenmaker não o fez.
"Tomamos a decisão de isolar a construção, não destruí-la, porque não pudemos confirmar se havia civis no interior", disse ele.
Segundo os militares, os militantes que estavam no complexo provavelmente escaparam pelos lados que não foram cercados.
O general McChrystal endureceu as regras para bombardeios aéreos depois da repercussão do ataque americano que matou 140 civis Província de Farah, em maio, segundo fontes afegãs. Os EUA admitiram erros na operação, mas dizem ter matado mais talebans que civis.
O apoio aéreo ostensivo foi feito por um helicóptero Cobra, que circulou a maior parte do dia sobre a região e disparou foguetes em uma área próxima. Outros fuzileiros caminharam através de campos de milho e feno, enquanto apenas um pequeno número de moradores ousou sair de casa.
Os militares disseram que não houve relatos confirmados de vítimas civis ou danos às propriedades. Ele salientou que nenhuma bomba foi lançada de aeronaves. Também não há informações sobre vítimas entre os militantes.
As temperaturas de Helmand, acima dos 37,7 °C foi um dos desafios para os soldados com uma grande carga junto ao corpo.
"É como quando você abre o forno quando está assando uma pizza e quer ver se ela está pronta, você recebe aquela lufada de ar quente. É desse jeito aqui o tempo todo", disse Lance Corp Charlie Duggan Jr., 21, de Baldwinsville, Nova York.
Mas os fuzileiros, treinados durante meses no calor do deserto de Mojave, na Califórnia, e muitos pareciam felizes de estar aqui.
Em um momento no qual cerca de 50 fuzileiros navais estavam relaxando em uma construção de adobe abandonada, com os uniformes empoeirados e cheios de suor, alguém viu um afegão que pareciam estar olhando para eles de uma estrada próxima. Todos rapidamente colocaram seus coletes e capacetes.
"É uma droga, mas é para isso que você treinou toda a sua vida", disse o tenente Chris Wilson, 25, de Ramsey, Nova Jersey, enquanto sorria e segurava um rádio com uma antena de dois metros e meio.
Esta quinta foi o primeiro dia dele em uma zona de combate.
Histórico
O Taleban, que governou o Afeganistão entre 1996 e 2001 foi afastado do poder por uma coalizão internacional liderada pelos EUA que invadiu o país após os atentados de 11 de Setembro. Na época, dos ataques, atribuídos à rede terrorista Al Qaeda, o terrorista saudita e seu grupo eram "hóspedes" dos talebans. Nos dois últimos anos, o grupo conseguiu se fortalecer e contra-atacou, conseguindo o controle de grande parte do sul e do leste do país, e expandindo seus domínios para áreas tribais no Paquistão, o que obrigou os EUA a enviar mais tropas para o país.
No fim de março, Obama anunciou a nova estratégia para o Afeganistão e o Paquistão, colocando a luta contra a rede Al Qaeda e o grupo fundamentalista Taleban como prioridade da política de segurança nacional, reduzindo tropas e recursos para o Iraque.
A estratégia de Obama visa a aumentar o tamanho do exército afegão dos atuais 80 mil para 134 mil soldados até 2011 e ampliar significativamente o treinamento fornecido pelos soldados americanos para que os militares afegãos possam derrotar os insurgentes taleban e assumir o controle da guerra.
A Casa Branca também está tentando definir objetivos claros para a guerra, como uma forma de conseguir apoio popular para um conflito que parecia sem foco, proporcionar mais recursos para os combates e angariar mais apoio internacional.
Não há prazo para a retirada das tropas americanas do Afeganistão, e a Casa Branca não divulgou estimativas de quantos bilhões de dólares o plano vai custar.
Fonte: Folha OnLine
