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Pais de brasileiro buscam indenização

Quatro anos após morte do filho, confundido com terrorista pela polícia de Londres, eles reclamam da impunidade

Familiares do mineiro Jean Charles de Menezes, assassinado pela polícia britânica no metrô de Londres, em 2005, não conseguiram disfarçar o incômodo com um certo clima festivo que na sexta-feira tomou conta da minúscula Gonzaga, cidade de 6 mil habitantes no leste de Minas Gerais. Quase quatro anos após a morte trágica do jovem eletricista, então com 27 anos, seus pais e irmão ainda reclamam da impunidade e aguardam por uma indenização. Anteontem, o casal Matozinhos e Maria Otoni de Menezes e o filho Giovani da Silva vestiram as melhores roupas para acompanhar o pré-lançamento do filme Jean Charles, o longa que conta a história do brasileiro confundido com um terrorista e executado com oito tiros em 22 de julho de 2005.

Antes da exibição - num telão montado no campo de futebol da cidade -, a mãe de Jean Charles relembrou do dia em que assistiu pela TV a notícia do assassinato, sem saber que a vítima era o próprio filho. "Imaginei que aquele terrorista também tinha mãe e que ela deveria estar sofrendo. Nem passou pela minha cabeça que seria eu quem ia sofrer. Nunca mais minha vida foi normal. Para mim, que sou mãe, não passa nunca", desabafou Maria, de 64 anos.

O que mais aflige a família, contudo, é a não punição dos policiais responsáveis pelo episódio. "Como uma polícia que tem todo treinamento, que nem usava armas, comete uma barbaridade dessas?", diz Giovani, de 37 anos, que vivia em São Paulo e foi obrigado a abandonar o emprego e retornar à cidade natal para apoiar os pais após a morte do único irmão. "Depois que perceberam que tinham cometido o erro, começaram a mentir e pioraram a situação."

A condenação apenas institucional da polícia britânica no final de 2007 pouco significou para os familiares do brasileiro. "Depois de quatro anos está tudo provado, mas nada resolvido. Os policiais não foram processados e continuam trabalhando", diz Giovani. "Os policiais que atiraram, a comandante (da operação, Cressida Dick) que mandou atirar continua exercendo a profissão."

Matozinhos ainda se pergunta o motivo de o filho, indefeso, não ter sido preso. O prédio em que Jean Charles morava, no sul de Londres, vinha sendo monitorado, pois no dia anterior uma mochila suspeita de pertencer a um suposto terrorista havia sido encontrada no local.

"Por que não o prenderam? Mas chegaram caladinhos e não deram defesa alguma para o Jean. Eles estavam atrás do meu filho há muito tempo", queixou-se o pai, perto de completar 70 anos. "Foi o que mais nos deixou chocados", acrescentou a mãe.

Dona Maria e o marido ainda vivem na casa modesta na comunidade Córrego dos Ratos, zona rural de Gonzaga, onde criam cerca de 15 cabeças de gado numa área de 16 hectares. "Mas não estamos conseguindo mais ficar na enxada", conta Matozinhos, que não cogita deixar o local onde morou a vida toda. "Aqui se pode deitar e dormir um sono fresco."

INDENIZAÇÃO

O casal vive da aposentadoria rural e da pequena criação. Quando foi morto, o filho costumava enviar mensalmente um montante equivalente na época a cerca de R$ 2,5 mil para a família, num momento em que a libra esterlina estava valorizada em relação ao real.

O processo de indenização ainda corre na Justiça britânica. Os familiares afirmam, que até agora, receberam do governo britânico somente um auxílio para os custos com funeral. Com parte do dinheiro, ergueram no cemitério de Gonzaga uma imponente sepultura para Jean Charles, avaliada em cerca de R$ 14 mil. "Os nossos advogados continuam na luta, mas não sabem até quando vai durar", diz Giovani, que para se sustentar montou um bar numa área periférica da cidade, onde vive com a esposa e os filhos.

A enorme repercussão internacional do caso transformou a vida de todos, mas agora os parentes de Jean Charles esperam que o assédio da imprensa diminua. "Esse filme, tudo bem, a gente concordou que eles fizessem. Sabíamos do alvoroço que ia dar na estreia. Mas passado isso, a gente pede um pouco de paz. Temos de retomar nossa vida normal", disse o irmão da vítima. "Já tem quatro anos que a gente batalha nesse togó (?inferno?, na gíria local)."

Fonte: Estadão