Líder supremo do Irã defende Ahmadinejad e culpa "inimigos do Islã" por crise
O líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, discursou nesta sexta-feira na Universidade Teerã e qualificou de "terremoto político" as eleições presidenciais do dia 12 de junho, que reelegeram o presidente Mahmoud Ahmadinejad e desencadearam uma semana de protestos em massa da oposição por suposta fraude eleitoral. Ele defendeu a vitória do presidente e acusou os "inimigos do Islã" de provocar os distúrbios.
Khamenei, que já havia apoiado o resultado oficial das eleições, rejeitou nesta sexta-feira qualquer tipo de fraude eleitoral.
Em um sermão para dezenas de milhares de pessoas na Universidade de Teerã, Khamenei destacou o fato de que cerca de 40 milhões de iranianos --85% da população-- apoiaram com seu voto os princípios da revolução em uma "festa histórica".
O líder supremo iraniano também acusou os "inimigos do Islã" de tentar provocar inquietação entre os muçulmanos, mas disse que desde o início da Revolução Islâmica, há 30 anos, muitos eventos podiam ter derrubado o sistema, mas "o navio sempre atracou no porto".
O discurso de Khamenei foi visto como um duro golpe para os oposicionistas, já que ele era visto como única porta de negociação com o governo. Khamenei foi quem intercedeu no Conselho de Guardiães, um órgão legislativo de 12 integrantes que é o pilar da teocracia iraniana, para avaliar a denúncia de fraude da oposição, liderada pelo candidato reformista moderado Mir Hossein Mousavi.
O Conselho rejeitou a proposta de anular a votação, mas aceitou fazer a recontagem parcial, das urnas contestadas pela oposição. Segundo um porta-voz do organismo, a oposição apresentou 646 queixas de fraude, incluindo a falta e o atraso na chegada de cédulas aos colégios eleitorais, pressão sobre os eleitores e o itinerário alterado de urnas em zonas rurais.
Culpa
Nesta sexta-feira, Khamenei retomou o discurso oficial do governo iraniano e chegou a acusar "algumas forças estrangeiras" de interferir em assuntos internos do país.
"Depois dos protestos nas ruas, algumas potências estrangeiras [...] começaram a interferir nos assuntos do Estado questionando o resultado do voto. Eles não conhecem a nação iraniana. Eu condeno duramente tal interferência", disse Khamenei.
Após o início dos protestos, muitos países ocidentais criticaram a postura do governo e pediram que Ahmadinejad investigasse as denúncias de fraude. A União Europeia foi quem adotou o discurso mais rígido. A França chegou a convocar o embaixador iraniano no país para justificar-se e o Reino Unido advertiu que a crise poderia afetar as relações bilaterais.
Os Estados Unidos, país considerado grande inimigo do Irã, preferiram adotar um tom mais cauteloso. O presidente dos EUA, Barack Obama, fez manifestações comedidas de apoio ao direito de manifestação e em favor do respeito à vontade dos eleitores iranianos, dosadas com declarações de imparcialidade.
Khamenei, contudo, não poupou Washington. "Os comentários americanos sobre os direitos humanos e limitações sobre as pessoas não são aceitáveis porque eles não têm ideia sobre o que é direito humano depois do que fizeram no Afeganistão e no Irã e em outras partes do mundo. Nós não precisamos de conselho sobre direitos humanos deles", completou.
Nesta semana, o governo iraniano lançou uma campanha para tentar conter os efeitos dos protestos em sua imagem internacional que inclui a expulsão de todos os jornalistas e agências de notícias estrangeiras e a proibição de conteúdo que "crie tensão" na Internet --último veículo de expressão dos oposicionistas em um país onde censura é rotina.
Protestos
Khamenei afirmou ainda que qualquer dúvida sobre os resultados das eleições de 12 de junho deve ser investigada por meio dos canais legais e pediu que os oposicionistas abandonem os protestos diárias nas ruas do centro de Teerã.
Ele confirmou a reeleição do presidente Ahmadinejad com 24,5 milhões de votos, de um total de 40 milhões, e descartou uma fraude na vitória do ultraconservador.
Ahmadinejad ganhou cerca de 63% dos votos contra 345 de Mousavi, seu principal oponente, apesar das pesquisas de intenção de voto indicarem uma disputa acirrada.
Ele afirmou que a vitória do presidente é "definitiva" e, por isso, não há justificativa para a anulação do pleito --pedido dos oposicionistas.
Em sua primeira aparição pública desde que os protestos começaram, Khamenei afirmou que os manifestantes seriam "responsabilizados pelo caos" se não encerrarem os dias de protestos massivos --os piores desde a Revolução Islâmica de 1979.
"Há uma diferença de 11 milhões de votos. Como alguém pode fraudar 11 milhões de votos?", disse.
"O povo escolheu quem queria. A eleição demonstrou a confiança no regime islâmico", disse, já que o pleito teve uma participação recorde de 85%.
Khamenei foi comedido em sua defesa a AHmadinejad, cujas ideias, disse, estão mais próximas das suas do que as da oposição.
Fonte: Folha OnLine
