EUA prendem casal acusado de espionar para Cuba por 30 anos
Ex-funcionário do Departamento de Estado teria passado para Havana centenas de páginas de documentos sigilosos
Um funcionário aposentado do Departamento de Estado dos EUA e sua mulher estão sendo acusados de terem espionado para Cuba por quase 30 anos. Os dois foram presos na quinta-feira e as acusações contra eles foram divulgadas ontem pelo Departamento de Justiça americano. Se condenados, eles podem pegar mais de 35 anos de prisão.
O caso vem à tona num momento em que o governo do presidente Barack Obama tenta promover uma reaproximação com Havana e apenas dois dias depois de os EUA apoiarem, na Organização dos Estados Americanos (OEA), a revogação da resolução que afastou Cuba da entidade, em 1962.
Walter Myers, de 72 anos, e sua esposa, Gwendolyn Myers, de 71, teriam passado informações confidenciais para autoridades cubanas desde 1979 e até se encontrado com Fidel Castro em 1995 (depois de entrar na ilha pelo México, usando nomes falsos). Eles também teriam feito muitas outras viagens para a América Latina e o Caribe para se encontrar com agentes de Havana.
Walter trabalhava no Instituto de Serviços Estrangeiros do Departamento de Estado e se especializou em assuntos europeus antes de se aposentar, em 2007. Segundo a acusação, só em seus últimos anos de trabalho, ele teve acesso a cerca de 200 relatórios de inteligência sobre Cuba. Já sua mulher trabalhava para um banco, em Washington. "Essa atividade clandestina, que se prolongou por quase três décadas, é incrivelmente grave e deveria servir de advertência a todos (que trabalham)no governo dos EUA", diz um comunicado do Departamento de Estado americano.
AGENTE 202
Nos serviços de inteligência de Havana, Walter era conhecido pelo codinome "agente 202" e Gwendolyn era a "agente 123" ou "agente E-634". Eles teriam concordado em espionar para Cuba após se reunirem com um agente desse país em Dakota do Sul, dois anos depois de Walter começar a trabalhar para a diplomacia americana (em 1977).
Em 1978, Walter foi convidado pelo responsável por uma missão cubana em Nova York para visitar a ilha e provavelmente já foi sondado por Havana na ocasião. De acordo com autoridades americanas, ele começou a receber informações classificadas como "top secret" em 1985. Seu grau de acesso a tais informações aumentou em 1999 e, apesar de entre 2001 a 2007 ele ter sido consultor para assuntos relacionados à Europa, recebia relatórios com dados sobre as relações com Cuba.
Segundo autoridades dos EUA, os Myers possuíam um rádio de ondas curtas, usado para transmitir mensagens em código Morse para os cubanos. Além disso, Gwendolyn passava informações em supermercados, deixando documentos em um carrinho de compras que entregava discretamente a agentes da ilha. Nos últimos anos, o casal também teria usado e-mails com nomes falsos para se comunicar com Havana.
A operação que terminou na captura dos Myers começou há três anos. Em abril, um agente encoberto do FBI (a polícia federal americana) conseguiu convencê-los de que era um espião cubano. Os dois começaram a se reunir com o agente em hotéis em Washington e chegaram a lhe entregar informações secretas sobre a Cúpula das Américas, realizada em abril em Trinidad e Tobago.
Fonte: Estadão
