Polícia Federal vê lobby de ex-ministro Silas Rondeau na Petrobras
Houve tráfico de influência do ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau na Petrobras, segundo a Polícia Federal. A apuração faz parte do inquérito da Operação Boi Barrica, cujo alvo principal é o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).
Integrante do Conselho de Administração da Petrobras, Rondeau, segundo a PF, "exerce grande influência" na estatal para "beneficiar os negócios do grupo" de Fernando.
Aliado de Sarney, Rondeau deixou o ministério em maio de 2007, acusado de envolvimento com fraudes da empreiteira Gautama. Desde então, tem se dedicado a prestar consultorias para empresas que atuam na área de energia, entre elas a eólica --setor que a Petrobras deve ampliar os investimentos.
Conforme a PF, Rondeau usa empresas de consultoria para "mascarar" recebimento de dinheiro de empresas da área de energia. O ex-ministro, diz a PF, "figura como sócio oculto" da empresa RV2 Consultoria, sediada em Brasília. Ele dá expediente na empresa.
Dias depois de ser criada, em maio de 2008, a RV2 assinou um contrato de R$ 195 mil com a empresa Multiner, que atua na geração de energia.
Um dos projetos da Multiner é a construção de duas usinas eólicas em Guamaré (RN), município onde a Petrobras tem cinco projetos para o setor. Até março, Multiner e Petrobras negociavam parceria. O negócio ainda não andou.
Além disso, a Multiner garantiu em 2008 a opção de compra de ações para controlar a termelétrica de Cristiano Rocha em Manaus. A usina recebe R$ 27,7 milhões (8,8% do total) em financiamento da Petros, o fundo de pensão da Petrobras.
O inquérito da PF menciona ainda contrato da RV2 com a Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica). Rondeau é consultor da associação, que tem a Petrobras entre seus associados. Lauro Fiuza Jr., presidente da Abeeólica, descarta qualquer ingerência do ex-ministro. "Não vejo como qualquer influência do Silas na Petrobras vai beneficiar a Abeeólica, não fazemos negócio."
Contratado pela associação cerca de três meses depois de deixar o ministério, Rondeau tem auxiliado a divulgar a energia eólica no Brasil, diz Fiuza.
Ao apresentar à Justiça Federal o pedido de prisão de Fernando em 2008, a PF cita a Petrobras em diferentes pontos de seu relatório. "Vários projetos mencionados durante o período de interceptação telefônica dizem respeito à atividade da Petrobras e da Eletrobrás, onde Silas [...] exerce forte influência", diz o texto.
Na semana passada, Fernando foi indiciado pela PF sob a acusação, entre outros crimes, de falsificar documentos para favorecer empresas em contratos com estatais. Alvo de cinco inquéritos, ele é apontado pela PF como o "líder da quadrilha" investigada pela suposta prática de tráfico de influência. Rondeau figura na lista dos investigados, mas não foi indiciado.
Em uma das conversas gravadas pela PF, com autorização judicial, Gianfranco Perasso, também acusado de tráfico de influência, diz a Fernando em abril de 2008 que "nosso projeto será apresentado ao presidente da Petrobras hoje". A PF, porém, não detalha o projeto.
Outro investigado, Flávio Lima cobrou, em maio de 2008, R$ 160 mil de uma empresa: "Vou estar com o Silas na terça. Vocês vão ver só uma coisa. Ah, porra, ele é do conselho da Petrobras. Vocês vão ver". O relatório não dá detalhes do caso.
Outro lado
Procurado na sede da RV2 e no prédio em que mora em Brasília, o ex-ministro Silas Rondeau não foi localizado para comentar a investigação da Polícia Federal.
A Petrobras, por meio de sua assessoria, informou que precisaria de mais tempo para levantar as informações questionadas por envolver unidades em diferentes Estados. A reportagem pediu à estatal que informasse se há impedimento de um conselheiro prestar consultoria em setores em que a Petrobras investe e checar se as empresas que têm contrato com Rondeau são parceiras da estatal.
O Código de Boas Práticas da Petrobras determina que os conselheiros e diretores devem guardar sigilo sobre informações relevantes até a sua comunicação e divulgação ao mercado. Segundo a estatal, o alto escalão "não pode obter, para si ou para outros, vantagens mediante negociação com ações".
O empresário Luiz Villar Filho, um dos dois sócios da RV2 Consultoria, confirma que Rondeau é associado da empresa e presta serviços de consultoria e assessoria só para companhias privadas.
Ele diz que nunca foi intimado ou convidado pela PF a prestar esclarecimentos sobre a investigação que apura a atuação de Rondeau.
"Nunca fomos chamados nem sequer citados pela PF. Nossa empresa é de consultoria que presta serviço para empresas privadas através de profissionais associados ou contratados, a exemplo do engenheiro Silas Rondeau", disse Villar Filho.
A Multiner confirma ter assinado contrato no valor de R$ 195 mil com a RV2 para ter consultoria na área de energia. A empresa informou não manter parceria oficial com a Petrobras para investir em energia eólica no Rio Grande do Norte.
Fonte: Folha OnLine
