Brasil prevê gastar R$ 10 bi para lançar usina até 2015
O governo brasileiro pretende investir cerca de R$ 10 bilhões na construção da usina nuclear Angra 3, prevista para começar a operar comercialmente em 2015 - cerca de três décadas após o início e a paralisação de suas obras.
Enquanto o mundo discute se vale a pena investir em energia nuclear, devido ao acidente nas usinas de Fukushima, no Japão, o Brasil descarta, ao menos por enquanto, paralisar as obras, mesmo com a pressão de ambientalistas e o temor em relação a esse tipo de combustível.
As obras de Angra 3 tiveram início em 1984, em Angra dos Reis (RJ), mas foram suspensas dois anos depois. Em 2007, o governo aprovou a retomada da construção da usina "abandonada", mas somente em 2010 as obras foram reiniciadas.
Angra 3 não deve ser muito diferente de sua "irmã" mais velha. Parte dos seus equipamentos foi adquirida na mesma época da construção de Angra 2, que começou a funcionar comercialmente em 2001.
Além disso, os projetos de engenharia e a tecnologia de ambas são muito semelhantes, bem como a capacidade de produção de energia. Angra 2 trabalha com uma potência de 1.350 MW (megawatt), enquanto a mais nova atingirá 1.405 MW - mais que o dobro que a primeira usina nuclear brasileira, a Angra 1.
Juntas, as três usinas devem produzir cerca de 26 milhões de MWh (megawatt-hora), ou o equivalente a quase 60% da energia consumida pelo Estado do Rio de Janeiro.
Polêmica, demanda e atrasos
A falta de investimentos no setor energético e o medo em relação à produção de energia nuclear foram os grandes responsáveis pelas décadas de atraso para inaugurá-la, de acordo com especialistas ouvidos pelo R7. Porém, mesmo após ser retomada com verba garantida pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), a construção de Angra 3 está um pouco abaixo do cronograma previsto, segundo dados de fevereiro de 2011.
De acordo como a Eletronuclear (responsável pela Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto), até fevereiro, 7,1% da construção havia sido concluída, mas a previsão era avançar até 8%.
Mas se o dinheiro não é mais problema - a usina conta com 70% de investimentos nacionais e 30% de dinheiro do mercado externo -, o receio em relação ao tipo de combustível continua a ser. No Brasil, como em outros países, o acidente nuclear no Japão reativou a onda de protestos, como explica Ricardo Baitelo, coordenador da campanha de energias renováveis do Greenpeace no país.
" Um dos maiores problemas da energia nuclear é que os acidentes não têm impacto pontual. Nós estamos falando de um acidente que se propaga pelas gerações futuras [das vítimas]".
Após o acidente, ambientalistas voltaram a pedir a suspensão das obras de Angra 3, em protesto realizado em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília, em meados de março.
Defensor da energia nuclear, o engenheiro nuclear Antonio Carlos Marques Alvim, professor da Coppe-UFRJ (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia Universidade Federal do Rio de Janeiro), argumenta que as fontes renováveis de energia - como a eólica (vento) e a hidráulica (água) -, não darão conta da demanda energética do país no futuro. Ele destaca também que, embora poucos saibam, o Brasil domina a tecnologia nuclear e sabe utilizá-la com segurança.
"A energia nuclear está evoluindo e eu acho que seria um desperdício abrir mão dessa tecnologia. [...] Claro que toda tecnologia tem seus impactos, mas nós não podemos deixar de contar com essas tecnologias em função de um possível medo. A gente não pode trabalhar com medo, mas com hipóteses, possibilidades, minimização de riscos e prevenção de acidentes".
Já o professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP (Universidade de São Paulo) e ex-secretário nacional do Meio Ambiente, José Goldemberg, diz que o Brasil deveria reavaliar seu programa nuclear.
"A primeira medida a tomar é rever as condições de segurança dos reatores e das medidas necessárias à proteção da população em caso de acidente. Estas providências podem incluir, como já ocorreu na Alemanha, a ‘aposentadoria` de reatores antigos. Isto tudo vai encarecer o custo de energia nuclear e a possível expansão deverá ser re-analisada".
Apesar de descartar parar as obras de Angra 3, o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, disse recentemente que o governo brasileiro acompanha "com toda a atenção" as discussões em relação aos "novos protocolos de segurança" que o setor deverá adotar após o acidente no Japão.
Fonte:R7
