Prática do bordado fortalece união de assentadas em Sergipe
Mãos calejadas e castigadas pelo trabalho no campo ganham leveza e precisão e, com criatividade e a delicadeza, vão transformando pedaços de tecido em pequenas obras de arte. Criado antes mesmo da conquista da terra, há quase nove anos, o grupo de bordadeiras do assentamento Vinte e Sete de Outubro, no município de Simão Dias (distante 100 Km de Aracaju), vem ganhando espaço e respeito em toda a região com seu trabalho.
Composto por dez agricultoras assentadas, a equipe, que produz almofadas, toalhas de mesa, lençóis e passadeiras, começa, aos poucos, a ver o resultado de tanto esforço ser revertido em ganho para suas famílias. "Ainda não dá para ganhar muita coisa, porque nós precisamos da ajuda de um intermediário para vender as peças na cidade. Mas já começa a entrar um pouco de dinheiro, que ajuda a complementar a renda dentro de casa", afirmou Júlia Moraes Santos, de 61 anos, fundadora do grupo.
Pioneira e grande responsável pela mobilização das trabalhadoras, Dona Júlia acompanha com alegria o aumento do interesse pelo trabalho de um grupo que nasceu debaixo da lona de um barraco e que agora começa a atrair até agricultoras mais jovens. "No começo, quando a gente ainda era acampada, éramos só eu e uma outra companheira. Depois, quem sabia fazer as peças foi ensinando as mais novas, e mais mulheres foram se interessando. Hoje, a gente já está com um grupo bom e consegue vender algumas peças", contou a agricultora.
Energia, companheirismo e união
Todo o trabalho é feito individualmente, na casa de cada uma das bordadeiras, que há três anos ganharam uma companhia diferente para as horas de bordado. "O Luz Para Todos, programa do Governo Federal, colocou energia elétrica aqui no assentamento há uns três anos. Agora a gente borda vendo um pouco de televisão", conta, sorrindo, Dona Júlia.
Apesar da execução individual da atividade, os trabalhos com bordados vêm estimulando cada vez mais a união entre as mulheres do assentamento. "Elas reúnem as peças para venderem juntas. Esse é um trabalho que está estimulando bastante a união entre as trabalhadoras. E a gente quer ver se dessa união nasce, quem sabe, uma cooperativa de bordadeiras", comenta Marcelo Alves, de 49 anos, engenheiro agrônomo do Centro de Cooperação Agropecuária Dom José Brandão de Castro, responsável pelas ações de assistência técnica no assentamento.
Para a execução dos trabalhos, as bordadeiras do Vinte e Sete de Outubro recebem toda a matéria-prima de uma intermediária, que depois compra as peças bordadas e as revende no centro comercial de Lagarto, um dos maiores municípios da região.
Galpão de costura
Para alcançar maior liberdade de comercialização, agregando valor aos produtos e elevando a renda familiar, o grupo, que conta com o apoio da equipe de Assessoria Técnica Social e Ambiental (Ates) do Incra/SE, vem pleiteando a implantação de um galpão de costura no assentamento. "Nós já solicitamos um projeto de instalação de um galpão, por meio de um projeto enviado ao Programa Terra Sol, do Incra. Pedimos, além do galpão, máquinas de costura e matérias-primas. Se conquistarmos isso, certamente as trabalhadoras vão poder vender seus produtos sem depender de intermediários, agregando valor às peças e garantindo melhoria da renda para suas famílias", ponderou Alves.
Segundo informações da equipe de Ates do Incra/SE, o projeto, que também recebeu apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), será encaminhado para análise ainda nas próximas semanas.
