Pimentão é o campeão do agrotóxico
De 101 pimentões coletados, pela Anvisa, em supermercados para o exame toxicológico, 65 (64,36%) continham agrotóxicos em quantidade muito superior ao que é permitido . (Divulgação)
O pimentão foi o alimento que apresentou o maior índice de agrotóxico entre 17 variedades de produtos comuns na mesa dos brasileiros analisados em 2008 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
De 101 pimentões coletados em supermercados para o exame toxicológico, 65 (64,36%) continham agrotóxicos em quantidade muito superior ao que é permitido - um miligrama por quilo, com exigência de 14 dias entre a aplicação e o consumo, de acordo com a legislação internacional, adotada pelo Brasil, conhecida por Codex Alimentarius.
Não foi só isso. Chamou a atenção da Anvisa o uso de agrotóxicos não permitidos, em todas as culturas analisadas. Ingredientes ativos banidos nos países desenvolvidos, como o acefato, o metamidofós e o endossulfam foram encontrados de forma irregular em abacaxi, alface, arroz, batata, cebola, cenoura, laranja, mamão, morango, pimentão, repolho, tomate e uva. "Desde 2008 o Brasil é o país que mais consome agrotóxico no mundo", disse o gerente de toxicologia da Anvisa, José Agenor.
Depois do pimentão, os campeões do agrotóxico são o morango (36,05%), a uva (32,67%) e a cenoura (30,39%). Ao todo, a Anvisa analisou no ano passado 1.773 amostras de 17 alimentos. Desde 2001 é feito o monitoramento, mas no começo da experiência poucos Estados participavam e eram coletados apenas nove tipos de produtos. No ano passado o controle passou a ser feito em todo o País, agora com 17 produtos. Somados todos os exames, o uso irregular de agrotóxico, ou por ser produto proibido, ou por excesso, corresponde a 15,28% em todos os alimentos analisados.
Os exames produziram também boas notícias. A popular dupla arroz e feijão, pela primeira vez monitorada, está com índices baixos - 4,41% e 2,92%, respectivamente, dentro do que estabelece a legislação. Em 2007, 44,72% das amostras de tomate analisadas tinham resíduos de agrotóxicos acima do permitido. No último ano, esse porcentual caiu para 18,27%. A batata é outro alimento de alto consumo que teve uma queda acentuada na contaminação por agrotóxico: de 22,2% em 2007, está agora com 2% A banana, que em 2007 tinha 6,53% de presença de produtos tóxicos, em 2008 ficou com 1,03%.
O anúncio dos novos estudos sobre a presença de substâncias nocivas à saúde nos alimentos foi feito numa solenidade na nova sede da Anvisa - próxima à Feira do Paraguai, a cerca de 6 quilômetros da Esplanada dos Ministérios. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que estava presente, anunciou que suspendeu o consumo de pimentão hoje mesmo. E agradeceu pela boa situação do arroz, do feijão e da banana. "Pimentão, adeus; arroz, feijão e banana, bem vindos", disse ele "Essa quantidade de agrotóxico é crime. Acho que já é um caso de polícia", afirmou o ministro.
No ano passado a Anvisa fez parcerias com os Estados para aumentar o controle de toxicologia dos alimentos. De acordo com a agência, a decisão de coletar os alimentos nos supermercados tem por objetivo monitorar se os limites máximos de resíduos agrotóxicos estabelecidos pela lei estão sendo respeitados. As análises realizadas servem como orientação ao setor produtivo, principalmente ações regionais, pois é possível identificar o fornecedor dos produtos a partir da documentação fiscal dos estabelecimentos. Quando os agricultores são identificados, a Anvisa avisa aos Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente para que tomem as providências legais. Casos de contrabando de produtos ilegais estão na alçada da Polícia Federal.
A Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), que congrega as empresas produtoras de agrotóxicos, ofereceu ajuda à Anvisa para reduzir a incidência dos produtos nos alimentos. O diretor-executivo da associação, José Otávio Menten, disse que as empresas têm oferecido treinamento para os agricultores para que só utilizem as doses recomendadas. "Só no ano passado nós demos treinamento para mais de 870 mil trabalhadores usarem os produtos de forma correta", afirmou ele.(AE)
