Mulheres do Alto Sertão sergipano incrementam renda familiar
Há quase três anos, agricultoras descobriram na criação de galinhas a receita ideal para incrementar a renda familiar e colocar mais comida na mesa (Divulgação)
No assentamento Nossa Senhora Aparecida, situado no município de Monte Alegre de Sergipe, a 156 quilômetros de Aracaju, as criações de bovinos e caprinos, meio de subsistência mais comum entre os sertanejos, estão sendo, aos poucos, substituídas por pequenas granjas instaladas nos fundos das moradias. Nesta área de reforma agrária criada pelo Incra no Alto Sertão Sergipano, uma das regiões mais áridas do País, 27 famílias começam a colher os primeiros frutos desse trabalho diferenciado e que vem mudando a historia do lugar.
No local, a tradicional figura do vaqueiro do sertão vai, aos poucos, cedendo espaço para um grupo de valentes agricultoras que, há quase três anos, descobriu na criação de galinhas caipira a receita ideal para incrementar a renda familiar e colocar mais comida na mesa. “Quando essa idéia apareceu, as mulheres do assentamento resolveram se organizar. Pedimos a ajuda dos maridos, colocamos a mão na massa e construímos as nossas granjas. No começo foi tudo difícil, mas, agora, com o dinheiro da venda dos ovos, a gente consegue ajudar na renda de casa”, conta a agricultora Maria Renildes Félix Mendonça, de 43 anos, dona de uma das maiores granjas do assentamento, com mais de 85 aves.
Com as estruturas prontas, as trabalhadoras receberam equipamentos, doados pelo Projeto Dom Helder Câmara, e participaram dos cursos de capacitação oferecidos pela Cáritas Diocesana, entidade responsável pela implantação das granjas. Em pouco tempo, além de contribuir para uma mesa mais farta dentro de casa, o trabalho começou a gerar, também, acréscimo na renda familiar, estimulando ainda mais o crescimento das pequenas criações. “No começo a gente tirava os ovos e abatia alguns frangos só para comer com a família. Mas depois de um tempo, a gente conseguiu começar a vender para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) de Monte Alegre e a colocar algum dinheirinho em casa. Isso animou muito todo mundo e agora a gente tenta, aos pouquinhos, ir comprando mais galinhas e pintinhos”, explicou Elisângela Martins, de 35 anos, membro do grupo das granjeiras.
Os ovos produzidos pelas granjas caseiras são comprados e distribuídos pela Conab para creches e escolas de Monte Alegre de Sergipe. Uma ação que auxilia no escoamento do excedente produzido pelo assentamento, incrementando a renda das famílias e fortalecendo o combate à fome e à pobreza na região. “A Conab compra nossos ovos por um preço muito bom, R$ 3,00 por dúzia. Isso ajuda demais a gente, porque facilita na hora da venda. A gente consegue colocar um pouco mais de dinheiro em casa e ainda sabe que o que a gente produz vai ajudar a matar a fome da criançada das creches e das escolas da cidade”, avalia Elisângela.
Para alavancar a produção de ovos no assentamento, as granjeiras vão receber recursos do Projeto Dom Helder Câmara para a compra de divisórias, chocadeiras e novos animais. “Quando chegar esse auxílio, a produção vai crescer ainda mais. As divisórias vão ajudar a separar os frangos, pintinhos e galinhas e, com as chocadeiras, temos certeza que conseguiremos mais ovos”, afirmou Maria Renildes.
Segundo a agricultora, o assentamento possui, em média, 65 animais por granja e a produção nas maiores unidades, com cerca de 80 galinhas, chega a 120 ovos a cada dois dias.
Saneamento contábil
Unidas pelo projeto de criação de galinhas, as mulheres do Nossa Senhora Aparecida promoveram, também, nos últimos anos, a quitação de dívidas da Associação de Moradores do assentamento. Para acabar com a inadimplência, elas decidiram organizar as contas e criaram a “contribuição de recuperação” a ser paga por todas as famílias do local.
A idéia recebeu a aprovação dos assentados e a cobrança da contribuição, no valor de R$ 5,00 mensais por família.
Hoje, com as contas ajustadas e sem dívidas, a associação de moradores local voltou a ter acesso a créditos bancários e, estimulada pela experiência bem sucedida das mulheres granjeiras, investe na diversificação produtiva para garantir um futuro mais promissor. “Hoje a gente não deve para mais ninguém e já pode buscar financiamento para plantar. Também passamos a valorizar mais a criação de galinhas e, agora, estamos montando um banco de sementes, para plantar milho, abacate, feijão e outros grãos sem usar agrotóxico”, conta Carlos Soares, 57 anos, presidente da Associação.
