Na madrugada desta sexta-feira (7), a Câmara de Deputados aprovou a proposta de reforma tributária e uma emenda aglutinativa — ou seja, um texto que junta todas as emendas. No entanto, todos os destaques — que poderiam mudar partes do texto — foram rejeitados.

O plenário da Câmara esteve reunido para discutir a reforma tributária (PEC 45/19) em dois turnos. Ao todo, foram mais de 12 horas de discussão e votação.

No segundo turno, foram 375 votos a favor, 113 contrários e três abstenções. Já no primeiro turno, foram 382 votos favoráveis e 118 votos contra. Eram necessários 308 votos para a aprovação da proposta.

No Senado, a proposta pode ser discutida e votada no segundo semestre. Horas antes da aprovação da refoma tributária na Câmara dos Deputados em primeiro turno, nesta quinta-feira (6), a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, afirmou que a proposta deve ser discutida no Senado até o fim do ano.

"Tem algumas particularidades, acho que é uma Casa que vai precisar de um pouco mais de tempo. E é até bom que se tenha esse tempo", disse.

Minutos após a proclamação do resultado da votação em plenário, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, publicou no Twitter que "parecia impossível", mas que "valeu lutar". Pouco depois, o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, afirmou nas redes sociais que a votação favorável da proposta que simplifica os impostos "é mais um passo importante para a reconstrução e desenvolvimento do nosso país".

Mesmo com a movimentação de Jair Bolsonaro (PL) para votação contra do partido, 20 deputados do PL disseram "sim" à proposta em primeiro turno. As "traições" não se limitaram à oposição. Partidos da base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) votaram contra a reforma tributária. É o caso do PDT, que deu um "não", e do PSOL, que foi responsável pelas três abstenções que a proposta recebeu na primeira votação.

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que altera e simplifica o sistema tributário brasileiro avança agora para apreciação do Senado.

Votação por partido

  • Avante
    SIM: 6
    NÃO: 1

  • Cidadania
    SIM: 4
    NÃO: 0

  • MDB
    SIM: 36
    NÃO: 6

  • Novo
    SIM: 1
    NÃO: 2

  • Patriota
    SIM: 3
    NÃO: 1

  • PCdoB
    SIM: 6
    NÃO: 0

  • PDT
    SIM: 16
    NÃO: 1

  • PL
    SIM: 20
    NÃO: 75

  • Podemos
    SIM: 10
    NÃO: 2

  • PP
    SIM: 40
    NÃO: 9

  • PSB
    SIM: 15
    NÃO: 0

  • PSC
    SIM: 2
    NÃO: 1

  • PSD
    SIM: 39
    NÃO: 4

  • PSDB
    SIM: 12
    NÃO: 2

  • PSOL
    SIM: 10
    NÃO: 0
    ABST.: 3

  • PT
    SIM: 67
    NÃO: 0

  • PV
    SIM: 6
    NÃO: 0

  • Republicanos
    SIM: 37
    NÃO: 3

  • Solidariedade
    SIM: 4
    NÃO: 0

  • União
    SIM: 48
    NÃO: 11

Como ficam os impostos

A mudança no sistema tributário do país prevê alterações nos impostos que incidem sobre o consumo, como a substituição de cinco impostos:

  • PIS, Cofins e IPI (tributos federais): por uma Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), gerida pela União;
  • ICMS (tributo estadual) e ISS (tributo municipal): por um Imposto sobre Bens e Serviço (IBS), que será administrado por estados e municípios.

Além disso, a proposta aprovada traz três alíquotas para o futuro Imposto sobre Valor Adicionado (IVA):

  • Alíquota geral;
  • Alíquota 50% menor para atividades como transporte público, medicamentos, produtos agropecuários in natura, serviços médicos e de educação;
  • Alíquota zero para alguns medicamentos e setores como saúde, educação, transporte público, medicamentos e produtos do agronegócio.

Cesta básica

A cesta básica nacional de alimentos também foi incluída na alíquota zero. De acordo com o texto, fica instituída a Cesta Básica Nacional de Alimentos, "em observância ao direito social à alimentação, cujos produtos poderão ter redução de alíquota a zero". A lei complementar define os produtos destinados à alimentação humana que comporão a cesta e terão alíquota zero.

Segundo a proposta, o período de transição para unificar os tributos vai durar de 2026 a 2032. A partir de 2033, os impostos atuais serão extintos. Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), relator do texto, propõe o início da transição em 2026. Nessa etapa, o IVA federal terá alíquota de 0,9%, e o IVA estadual e municipal, de 0,1%.

Apelo dos governadores foi atendido

Aguinaldo Ribeiro atendeu ao pedido de governadores e fez mudanças na governança do Conselho Federativo, que vai ser responsável por gerir o IBS. O relator definiu que a composição da estrutura do conselho terá:

  • 27 representantes de cada um dos estados e do Distrito Federal;
  • 14 representantes, que serão eleitos, com voto em peso igual, pelos municípios;
  • 13 representantes, que serão eleitos, com peso do voto ponderado pelo número de habitantes, pelos municípios.

As decisões do conselho serão votadas e aprovadas se obtiverem a maioria dos votos que considerem:

  • a maioria absoluta de seus representantes;
  • se a maioria de representantes dos estados e do Distrito Federal corresponderem a mais de 60% da população do país; e
  • se tiver maioria absoluta de representantes em relação ao conjunto dos municípios e do Distrito Federal.

Mudanças em cima da hora

O texto aprovado é um novo parecer do relator da proposta, Aguinaldo Ribeiro (PP-AP), apresentado por volta das 18h55 desta quinta (6), com mudanças em pontos que travavam as negociações: o Conselho Federativo, a Zona Franca de Manaus e o setor do agro.

O texto protocolado é uma nova versão do substitutivo inserido no sistema na quarta-feira (5), após  negociações com os governos federal, estaduais e municipais e com diversos setores econômicos. De acordo com o relator, é uma versão “em prol de uma reforma tributária mais consensual”.

Além do detalhamento do Conselho Federativo, outra mudança se deu no tratamento diferenciado para a Zona Franca de Manaus e as Áreas de Livre Comércio. A alteração, como aponta o relatório, é “ fruto de importante acordo entre os estados amazônicos e o governo federal”. A proposta garante, ainda, o diferencial competitivo das zonas de processamento de exportação.

As alíquotas dos regimes favorecidos foram reduzidas ainda mais, de 50% para 40% da alíquota padrão. Além disso, a nova versão apresentada nesta quinta (6) retira a referência à lei nº 10.925, de 23 de julho de 2004, na redução para insumos agropecuários, alimentos destinados ao consumo humano e produtos de higiene pessoal, e amplia alíquota reduzida para setores de comunicação como produção jornalística e audiovisuais nacionais.

Veja outros pontos da proposta:

  • Imposto seletivo — Será uma espécie de sobretaxa sobre produtos e serviços que prejudiquem a saúde ou o meio ambiente.

EXCEÇÕES

A Zona Franca de Manaus e o Simples manteriam suas regras atuais. E alguns setores teriam regimes fiscais específicos: operações com bens imóveis, serviços financeiros, seguros, cooperativas, combustíveis e lubrificantes, planos de saúde.

CORREÇÃO DE DESEQUILÍBRIOS

  • Cashback — A emenda constitucional deve prever a implantação de um cashback ou devolução de parte do imposto pago. Mas o funcionamento do mecanismo ficará para a lei complementar.
  • Fundo de Desenvolvimento Regional — Este fundo será criado com recursos da União para promover regiões menos desenvolvidas. O objetivo é ter R$ 40 bilhões por ano a partir de 2033.